Os carros a hidrogénio continuam a ser uma solução de nicho em Portugal, mas já não são apenas "teoria": existem modelos no mercado e começam a surgir projetos de abastecimento. O ponto de partida é simples: um carro a hidrogénio do tipo FCEV (fuel cell electric vehicle) é, na prática, um carro elétrico que produz eletricidade a bordo através de uma célula de combustível alimentada a hidrogénio, em vez de depender de uma bateria grande carregada na rede elétrica. Ao mesmo tempo, a rede pública de carregamento das baterias cresce a ritmo muito mais acelerado, influenciando a decisão de compra para a maioria dos condutores.
Como funciona um carro a hidrogénio (FCEV)?
Num FCEV, o hidrogénio armazenado no veículo reage na célula de combustível com o oxigénio do ar. Dessa reação resulta eletricidade (para alimentar o motor elétrico) e vapor de água. É por isso que, no uso diário, o "escape" não liberta gases poluentes locais: o subproduto é água. Na utilização, a experiência é semelhante a um elétrico: binário imediato, condução silenciosa e travagem regenerativa (normalmente com uma bateria pequena de apoio). A grande diferença está no "reabastecimento": em vez de ligar a um posto de carregamento, abastece-se hidrogénio num posto dedicado, em poucos minutos (mais parecido com gasolina/gasóleo do que com carregamento rápido).
A diferença entre hidrogénio verde, azul e cinzento
Nem todo o hidrogénio tem o mesmo impacto climático. De forma prática:
- Hidrogénio verde: produzido por eletrólise da água com eletricidade de origem renovável.
- Hidrogénio azul: produzido a partir de gás natural, com captura e armazenamento de carbono para reduzir as emissões.
- Hidrogénio cinzento: produzido a partir de combustíveis fósseis (tipicamente gás natural) sem captura de CO₂, sendo o mais emissor.
Esta distinção pesa cada vez mais porque a União Europeia tem vindo a consolidar regras e certificações para classificar "hidrogénio renovável" e enquadrar "hidrogénio de baixo carbono", o que condiciona apoios, contabilidade de emissões e investimentos em infraestrutura.
Vantagens e desvantagens dos carros a hidrogénio
A tecnologia tem pontos fortes claros, mas também desafios muito concretos, sobretudo em Portugal, onde o ecossistema da mobilidade a hidrogénio ainda dá os primeiros passos.
Vantagens: autonomia elevada e abastecimento rápido
- Abastecimento em minutos: a lógica é semelhante à de um combustível líquido, com tempos típicos de 3 a 5 minutos para reabastecer.
- Autonomia competitiva: as autonomias típicas são na ordem dos 450–600 km por depósito.
- Menor dependência de grandes baterias: ao contrário de um veículo 100% elétrico "convencional" (BEV), que depende exclusivamente desta tecnologia de armazenamento de energia, o FCEV usa uma bateria mais pequena.
- Aplicações interessantes para frotas e pesados: é um dos cenários onde o abastecimento rápido e autonomia podem ser uma vantagem operacional (autocarros, camiões, serviços urbanos).
Desafios: custo de aquisição e rede de abastecimento
- Infraestrutura ainda muito limitada: a oferta de postos de abastecimento ainda é reduzida e isso trava a adoção, apesar de se prever a sua natural expansão.
- Preço do veículo: os FCEV continuam caros face a BEV equivalentes, em parte pela complexidade da célula de combustível e também pela baixa escala de produção.
- Impacto climático depende do hidrogénio: se o H₂ for produzido a partir de fontes convencionais (fósseis), pode existir CO₂ significativo a montante.
- Segurança e manuseamento: o hidrogénio é inflamável e exige cuidados técnicos (armazenamento e abastecimento com regras próprias), aumentando custos e exigência na operação dos postos.
Comparativo: carro a hidrogénio vs. carro elétrico a bateria
Para um condutor a comparação raramente é "qual é mais futurista" mas sim "qual é mais prático e económico para o meu uso".
Eficiência e energia por km
Em termos de cadeia energética, um BEV tende a ser mais eficiente: a eletricidade vai diretamente para a bateria e para o motor. No hidrogénio, há etapas extra (produção do H₂, compressão/armazenamento, transporte e reconversão em eletricidade na célula), o que normalmente reduz a eficiência do ciclo "da eletricidade às rodas".
Infraestrutura em Portugal
Aqui a diferença é muito marcada: a rede pública de carregamento elétrico é extensa e cresce rapidamente, já ultrapassando os 6000 postos e os 12 000 pontos de carregamento no território nacional (com milhares de pontos rápidos/ultrarrápidos).
No hidrogénio, os projetos existem, mas a cobertura é incipiente e, frequentemente, orientada para frotas e pesados.
Custos operacionais
Os BEV têm custos operacionais baixos e vasta disponibilidade de recarga, o que são vantagens óbvias. No hidrogénio, o reabastecimento rápido e a autonomia pesam a favor, mas o custo do combustível por km pode variar muito e ainda não é tão previsível para o consumidor comum em Portugal.
E os híbridos elétricos (HEV/PHEV)?
Para quem faz muitos quilómetros sem acesso fácil a carregamento, um híbrido (ou híbrido plug-in) continua a ser uma solução mais simples, porque usa a infraestrutura de combustíveis líquidos já existente. Mas não oferece um funcionamento com emissões locais zero como um BEV ou um FCEV.
Perguntas frequentes sobre carros a hidrogénio
É seguro quando usado dentro das normas: os veículos são homologados e os sistemas são desenhados para conter hidrogénio sob condições exigentes. Dito isto, o hidrogénio é inflamável e requer procedimentos e equipamento específicos.
Depende muito do país, do posto e do tipo de fornecimento (retalho vs. contratos para frotas). Um exemplo frequentemente apontado é para preços na ordem de 10 a 20 €/kg no abastecimento (com 1 kg a permitir, aproximadamente, cerca de 100 km num automóvel). Usando o consumo WLTP indicado para o Mirai (~0,79 kg/100 km), dá cerca de 7,9 €/100 km a ~15,8 €/100 km (antes de considerar variações reais de condução e preços locais). Para pesados e frotas com contratos, já há exemplos bem mais baixos, a 8 €/kg.
Em uso no dia a dia, sim. Um FCEV não emite CO₂ pelo escape e o subproduto local é água. Mas, numa perspetiva completa, o resultado depende de como o hidrogénio foi produzido: se for verde (renovável), o benefício climático é muito maior; se for cinzento (fóssil), as emissões a montante podem ser relevantes.